Uma das atividades de um selo de música é estar sempre em busca de bandas e novidades para lançar e distribuir. Devo admitir que sou um cara mais old school (e tenho certo prazer em ouvir meus CDs e LPs, até mesmo aqueles que já memorizei por completo), enquanto o meu sócio Igor Void gosta muito de ir atrás de coisas novas, principalmente descobrir pérolas perdidas no tempo. Embora eu também ouça streaming e busque novidades, o Igor é um cara superantenado.
Há casos em que eu recomendo bandas antigas que gosto muito e peço para que o Igor garimpe contatos, buscando uma forma de lançar (foi assim com Chariot, Satan, Mayhem e outras bandas que ouço desde adolescente, e que foi pra mim como alguns sonhos realizados). Mas há casos em que surge uma banda um pouco mais antiga e desconhecida, de qualidade ímpar. Foi o caso do Djevel.
A descoberta
O ano era 2019. Lembro que eu estava em casa quando o Igor me mandou a música que abre o álbum “Ormer til armer, maane til hode”: era a faixa título! Ele é muito fã do Emperor e até já escreveu uma resenha sobre a relação dele com o álbum “Anthems to the Welkin at Dusk”, então quando descobriu o Djevel (banda da qual Bård “Faust” Eithun, ex-baterista do Emperor, havia entrado em 2017), ele já sabia que tinha algo especial ali.
Ao ouvir a faixa pela primeira vez, já gostei da abertura. Mas o momento que me fisgou definitivamente foi lá pelos 3 minutos: um interlúdio onde a guitarra chama o riff e depois a banda toda entra num ritmo mais compassado, com a bateria mantendo o pedal duplo linear. Aquilo me pegou de vez!
O formato especial
Um problema de inserir bandas novas ou desconhecidas no mercado brasileiro é que os fãs normalmente gostam dos nomes tradicionais e dão mais valor ao que já é conhecido, sendo bem difícil promover coisas diferentes por aqui.
O “Ormer til armer, maane til hode” saiu lá fora num formato bem simples: digisleeve, um tipo de envelope com o CD dentro. Foi então que o Igor deu a ideia de fazermos um digipack especial com um corte em formato de cruz invertida na capa. Eu fiz um modelo com o corte especial para a gráfica e descobrimos que era viável. Essa acabou se tornando a marca dos CDs do Djevel lançados no Brasil: um formato inédito, muito especial e que chamou atenção dos fãs de black metal.

A discografia completa
Em 2026, com o lançamento de “Dødssanger” (o primeiro álbum da banda, de 2011), encerramos o acordo com a Aftermath Music da Noruega: o combinado era lançar toda a discografia. São 9 lançamentos, todos no formato especial. Alguns já estão esgotados; outros ainda estão disponíveis na nossa loja e em lojas de todo o Brasil (saiba onde comprar).

Dødssanger (2011) • ARMY 125-CD

“Dødssanger” (“canções de morte”, em norueguês) é o álbum de estreia do Djevel, de 2011, e o nono e último lançamento da nossa série com a discografia completa da banda.
Ouvir o debut de uma banda é sempre revelador. No caso do Djevel, é nítido que Ciekals já sabia em 2011 exatamente o que queria. Os riffs que ora remetem aos momentos mais sombrios do Darkthrone, ora ao Satyricon majestoso dos anos 90, estão todos lá. “Djevelheim” e “Paakallelsen” são os pontos altos, mas a pequena peça instrumental “Djevelslått” é quase um cartão postal enviado das florestas mais geladas da Noruega: bem curta, com aquele clima folk sinistro que só o clássico black metal norueguês consegue criar.
Besatt av maane og natt (2013) • ARMY 126-CD

“Besatt av maane og natt” (em tradução livre, “obcecado pela lua e pela noite”) traz uma formação impressionante: Ciekals nas guitarras, o lendário Dirge Rep (ex-Enslaved, ex-Gorgoroth, Gehenna) na bateria, Mannevond (Koldbrann, Urgehal) no baixo e Erlend Hjelvik (então vocalista do Kvelertak) nos vocais.
A faixa título tem um riff daqueles que ficam na cabeça por horas. Se você quer convencer alguém que gosta de Gorgoroth e Taake a dar uma chance ao Djevel, comece por essa música. A produção é ligeiramente mais apurada que a do debut, mantendo ainda a aspereza que o gênero exige.
Saa raa og kald (2015) • ARMY 103-CD

“Saa raa og kald” (“tão cru e frio”) é o terceiro álbum e um dos pontos mais altos da fase inicial da banda.
O disco é “mais porrada” na maior parte do tempo, e é justamente aí que está o impacto: a velocidade não compromete a atmosfera. Riffs rápidos e ríspidos lado a lado com melodias majestosas e marcantes, tudo muito bem encaixado. A faixa título e “Vaar forbannede jord” são os dois momentos que mais gosto no álbum. Tem também vocais limpos em alguns trechos que remetem ao Enslaved mais antigo, e passagens acústicas que dão fôlego sem quebrar a proposta.
Norske ritualer (2016) • MIND 060-CD

“Norske ritualer” é o quarto álbum e traz uma surpresa especial: a participação de Hoest, do Taake, em “Doedskraft og tri nagler”. A produção soa mais nítida e fria que o disco anterior, o que dá um caráter ainda mais glacial à obra.
Tem também um dos interlúdios acústicos mais belos da discografia, “Til mitt kjaere Norge”. E para quem ainda duvida que o Djevel sabe construir épicos de verdade, a faixa final “Med tornespiger var han haengt” é a prova: aquela seção final não tem explicação, só precisa ser ouvida (preferencialmente no escuro)!
Blant svarte graner (2018) • MIND 032-CD

“Blant svarte graner” (“entre abetos negros”) é o quinto álbum e o momento em que o Djevel deixou de ser uma banda excelente para se tornar uma das melhores bandas de black metal da atualidade. Abetos são árvores coníferas (retratadas na capa por meio de técnicas de pontilhismo) nativas de florestas temperadas da Europa: algumas espécies possuem cones que lembram um pouco os nossos pinheiros brasileiros.
Com Bård “Faust” Eithun (ex-Emperor) na bateria, algo mudou: as músicas ficaram mais elaboradas e os momentos de maior tensão soam mais carregados do que antes. A introdução acústica do disco já avisa o que vem pela frente, e o álbum não decepciona. A segunda faixa, “Her er ikke spor af mennesker” é simplesmente sensacional.
Ormer til armer, maane til hode (2019) • MIND 016-CD

Como contei na introdução, este foi o primeiro lançamento do Djevel no Brasil e o responsável por toda essa história.
O sexto álbum é mais direto e cru que o “Blant Svarte Graner”: sem as passagens acústicas, com uma produção mais visceral. Uma comparação que me vem à cabeça é com “For Kunsten Maa Vi Evig Vike” do Kvist, mas com a riqueza melódica que é marca do Djevel. As faixas longas te puxam pra dentro e não é fácil sair, especialmente a última, “Illoeygd foedt som Satans barn, paa ferd uden spor af menneskeverd”, com mais de 11 minutos, que continua sendo uma das minhas favorita de toda a discografia.
Tanker som rir natten (2021) • MIND 043-CD

“Tanker som rir natten” (“pensamentos que assombram à noite”) marca uma nova fase: a entrada de Kvitrim (Mare, Vemod, Black Majesty) nos vocais e baixo muda a equação. Ele traz uma profundidade diferente, especialmente nos momentos de coral e nos vocais limpos, que ganham muito mais espaço. É o disco mais atmosférico do Djevel até aquele momento e inicia a “trilogia da noite”, com um conceito que envolve os próximos dois álbuns.
As músicas são longas (média entre 9 e 10 minutos), com camadas de guitarra que se sobrepõem e passagens acústicas mais presentes do que em qualquer disco anterior, remetendo ao “Bergtatt” do Ulver sem perder a agressividade. A faixa final, “Vinger som tok oss over en brennende himmel, vinger som tok oss hjem”, começa e termina em lugares completamente diferentes: vocais limpos, coral, guitarra acústica, black metal puro, tudo dentro de uma mesma música. Impressionante!
Vale mencionar: “Tanker som rir natten” venceu o Grammy norueguês de melhor álbum de metal em 2021.
Naa skrider natten sort (2022) • ARMY 072-CD

Este foi o primeiro lançamento do Djevel já sob o nome Metal Army, encerrando a fase Mindscrape Music em 2022. É o segundo álbum de uma trilogia iniciada com o “Tanker som rir natten”.
O black metal norueguês clássico é a base, mas novos elementos aparecem: piano, teclados e passagens acústicas ao estilo da trilogia black metal do Ulver são colocados nas músicas com naturalidade. A faixa título começa de forma atmosférica e vai ficando mais forte até chegar num ponto onde beleza e brutalidade dividem o mesmo espaço. Todos os exemplares vieram acompanhados de um pôster 24x24cm.
Natt til ende (2024) • ARMY 120-CD

“Natt til ende” (“noite até o fim”) encerra a trilogia. Com Ciekals, Faust e Kvitrim consolidados como trio, é o disco mais sombrio da discografia, sem dúvidas.
É o tipo de disco que exige atenção total. Não é para ouvir enquanto lava a louça ou enquanto trabalha numa planilha de Excel: precisa de silêncio e disposição para se deixar levar por quase uma hora do mais denso black metal norueguês!
O fim de uma era
Em 8 de fevereiro de 2025, a notícia chegou: Trånn Ciekals morreu. Fundador e mente por trás do Djevel desde 2009, foi ele quem assinou os nove álbuns. O comunicado oficial da banda dizia:
“É com a mais profunda tristeza em nossos corações que precisamos informar que nosso irmão e idealizador do Djevel, Ciekals, não está mais entre nós. Precisamos de alguns dias para processar essa perda. Nossos mais sinceros sentimentos vão para a família de Trond e, principalmente, para os seus dois filhos.”

O Djevel encerrou as atividades, porém a banda já estava trabalhando em novo material quando Ciekals partiu. Deve sair um álbum póstumo ainda nesse ano ou no início de 2027.
De volta à Noruega
Em junho de 2026, fechamos o ciclo: enviamos a última leva de CDs para a Aftermath Music, na Noruega. Como parte do nosso contrato, sempre reservamos algumas cópias para eles (é uma forma de reconhecer que aquele catálogo pertence à terra que o criou). Dessa vez foram os dois últimos lançamentos: “Dødssanger” e “Besatt av maane og natt”.
Fechar uma parceria assim, com nove álbuns num formato inédito no Brasil, ao longo de sete anos de trabalho, e ainda mandar de volta pro país de origem parte do que produzimos tem um peso simbólico para nós.

Onde encontrar

Alguns dos títulos já estão esgotados, mas ainda há cópias disponíveis na nossa loja online. Confira também nossa lista de distribuidores com pontos de venda em várias cidades do Brasil.
Títulos em ordem de lançamento no Brasil (mais recentes primeiro):
Disponível
Djevel
Dødssanger
Disponível
Djevel
Besatt av maane og natt
Disponível
Djevel
Natt til ende
Disponível
Djevel
Saa raa og kald
Disponível
Djevel
Naa skrider natten sort
Disponível
Djevel
Norske ritualer
Esgotado
Djevel
Tanker som rir natten
Esgotado
Djevel
Blant svarte graner
Esgotado
Djevel
Ormer til armer, maane til hode

